Esses dias me disseram, a respeito de um projeto que estava desenvolvendo, que Deus levaria as pessoas certas a participar. Compreendo. O problema é que Deus não costuma levar em consideração o fato de que, se as pessoas certas, naquele caso, fossem poucas, eu teria que arcar com um pequeno rombo financeiro. Ele é meio desligado nessas miudezas monetárias. Afinal de contas é dono de todo ouro e prata. Não tem com que se preocupar. Nós é que precisamos desse demônio de papel para sobreviver.
Pensando nisso é que percebi o caminho sutil que está levando o tinhoso a assumir sua forma definitiva nesse mundinho cão.
Aquele espírito de luz, não muito tempo depois de nos aparecer como serpente, abandonou a pobrezinha rastejante e assumiu a forma de metal pesado. Ouro, prata, bronze. Era preciso centenas de escravos para carregar, em carruagens reforçadas, um bom pagamento para casa. Com o passar dos séculos, transformou-se em níquel, mais leve e sutil. Uma boa quantia poderia ser carregada em uma maleta. Lentamente, como o inseto de Kafka, foi afinando até a leveza e versatilidade do papel, e coube em bolsos e cuecas. E vem seguindo seu inacreditável processo de desmaterialização, na intenção maldosa de tomar de novo a forma original da virtualidade, do espírito. Estará, logo, logo, instalado definitivamente dentro de nós.
Não é a toa que o Filho do Homem aconselhou-nos ao desapego total. Não é a toa que chamou o dinheiro pelo seu verdadeiro nome. Mamom. Não é a toa que nos deu como modelo os passarinhos e lírios.
Mas essa insuportável passagem dos evangelhos, talvez uma das mais desprezadas no cristianismo contemporâneo, é quase sempre vista de uma perspectiva, na melhor das hipóteses, parcial. Na esmagadora maioria das vezes, aqueles que não fogem desse texto intragável costumam usá-lo como exemplo do inescapável cuidado de Deus - aquele cuidado que vai fazer a adesão àquele projeto ser certamente suficiente e o rombo no orçamento ser evitado.
Evidentemente não é isso que o texto diz.
O surpreendente com os lírios é que mesmo que muitos floresçam, enfeitem e perfumem o campo, uma enorme quantidade deles morre seca e esturricada na estiagem ou afogada na enchente. Isso quando alguma cabra maldita não pisoteia ou, pior, mata o lírio sufocado em seu esterco. E pássaros, além de serem devorados por uma porção de predadores, são absolutamente incapazes de enxergar a parede de vidro que lhes partirá o pescoço. Ainda assim, por mais absurdo que nos pareça, todos estão sob o cuidado de Deus, segundo o primogênito de Maria.
O negócio é tocar a vida e torcer para nenhuma cabra passar por perto e para que todas as janelas permaneçam abertas.
Imutável
Há 18 anos pisei pela primeira vez o solo santo do morro do diabo*. Lá vivi intensamente alegrias, tristezas, amizades, pavores, cansaço, fome, frio, calor, solidão profunda, epifanias enebriantes, histórias engraçadas e trágicas. É impossível contabilizar quantas vezes subi essa montanha. Depois que deixei Curitiba, a primeira via de escalada que abri em Blumenau foi batizada de Baitaca, em homenagem à serra que abraça carinhosamente o monte que aninhou-se macio em minhas lembranças.
Foi lá que criei coragem e venci o gigante da timidez e do estilo brucutu para iniciar meu primeiro (e único) namoro.
Foi lá que vi o colega caído, o sangue no chão, a vida esvaindo pelo corte profundo na cabeça.
Foi lá que meu irmão deixou definitivamente de ser o tutor do mais novo e tornou-se para sempre, de maneira irreparável e irrevogável, o melhor e mais querido amigo.
Foi lá que o sol se pôs de maneira mais caprichosa, beijando delicadamente a linha do horizonte, numa tarde perdida no passado mas marcada eternamente na retina.
Foi lá que as nuvens formaram as mais belas mantas de algodão cobrindo todo planalto araucano de prata umedecida pelo banho da lua cheia.
Foi lá que amizades se entrelaçaram entre risos, conversas e lágrimas, ao ponto de não mais se desfazerem mesmo distantes.
Foi lá que levei meus filhos ano passado. E passei um dia mágico de nostalgia, com a linha obstinada do tempo vacilando sinuosa, na companhia de amigos queridos, do irmão parceiro, dos sobrinhos e da única namorada. Comemos sanduiches e lembramos histórias nos pés da mesma imutável e impassível pedra que me viu menino e homem, e me verá, um dia, partir para não voltar mais.
Foi lá que criei coragem e venci o gigante da timidez e do estilo brucutu para iniciar meu primeiro (e único) namoro.
Foi lá que vi o colega caído, o sangue no chão, a vida esvaindo pelo corte profundo na cabeça.
Foi lá que meu irmão deixou definitivamente de ser o tutor do mais novo e tornou-se para sempre, de maneira irreparável e irrevogável, o melhor e mais querido amigo.
Foi lá que o sol se pôs de maneira mais caprichosa, beijando delicadamente a linha do horizonte, numa tarde perdida no passado mas marcada eternamente na retina.
Foi lá que as nuvens formaram as mais belas mantas de algodão cobrindo todo planalto araucano de prata umedecida pelo banho da lua cheia.
Foi lá que amizades se entrelaçaram entre risos, conversas e lágrimas, ao ponto de não mais se desfazerem mesmo distantes.
Foi lá que levei meus filhos ano passado. E passei um dia mágico de nostalgia, com a linha obstinada do tempo vacilando sinuosa, na companhia de amigos queridos, do irmão parceiro, dos sobrinhos e da única namorada. Comemos sanduiches e lembramos histórias nos pés da mesma imutável e impassível pedra que me viu menino e homem, e me verá, um dia, partir para não voltar mais.
*Em tupi, Anhangava.
Compaixão tem nome
…Onde as botas e os fuzis impõem o medo, dão toque de recolher, fazem calar, ameaçam, perseguem e torturam, compaixão tem cara, cheiro e nome, pode chamar-se Dietrich Bonhoefer, Oscar Romero ou Helder Câmara, entre outros e outras.
…Onde os direitos humanos são violados, crianças são desrespeitadas, adolescentes abusados, idosos maltratados e pessoas sendo destratadas por causa da cor da sua pele, compaixão passa a ser ações concretas com cara, cheiro e nome, podendo chamar-se Nelson Mandela, Martin Luther King, entre outros e outras.
…Onde os pobres são mantidos por gerações como “intocáveis”, sem possibilidade de mudanças e quando a fome lhes impede de ter esperança e sonhos por melhores dias, compaixão tem cara, cheiro e nome, pode chamar-se William Booth, Madre Teresa de Calcutá ou Irmã Dulce, entre outros e outras.
…Onde uma nação é invadida, suas manifestações culturais proibidas, a violência normatizada e a incoerência entronizada, compaixão tem cara, cheiro e nome, pode chamar-se Mahatma Ghandi, entre outros e outras.
…Onde a natureza é explorada de forma gananciosa, sem nenhum compromisso com as gerações vindouras, compaixão tem cara, cheiro e nome, tem greve e discurso ainda que feito por um matuto como Chico Mendes, entre outros e outras.
…Onde a hipocrisia é quem manda, o fingimento é quem que reina e a falta do uso da razão é espiritualizada, compaixão tem cara, cheiro e nome, pode chamar-se Rubem Alves, entre outros e outras.
…Onde o analfabetismo é bem visto, o subemprego bem quisto e esse salário mínimo defendido, compaixão tem cara, cheiro e nome, pode chamar-se Darci Ribeiro ou Paulo Freire, entre outros e outras.
…Onde… compaixão é qualquer ação, feita especialmente em nome e por amor a Jesus, consciente ou inconsciente, espontânea ou não, que de alguma forma tira-nos do comodismo, do individualismo, do esquizofrenismo, das nossas dores, dos nossos desamores, dissabores e sofrimentos e leva-nos à identificação com o pobre, com o necessitado, com a dor alheia, impulsionando-nos a defender, a promover, a participar e a apoiar ações que visem o bem da coletividade.
Que o Eterno nos ajude a crescer em compaixão.
…Onde os direitos humanos são violados, crianças são desrespeitadas, adolescentes abusados, idosos maltratados e pessoas sendo destratadas por causa da cor da sua pele, compaixão passa a ser ações concretas com cara, cheiro e nome, podendo chamar-se Nelson Mandela, Martin Luther King, entre outros e outras.
…Onde os pobres são mantidos por gerações como “intocáveis”, sem possibilidade de mudanças e quando a fome lhes impede de ter esperança e sonhos por melhores dias, compaixão tem cara, cheiro e nome, pode chamar-se William Booth, Madre Teresa de Calcutá ou Irmã Dulce, entre outros e outras.
…Onde uma nação é invadida, suas manifestações culturais proibidas, a violência normatizada e a incoerência entronizada, compaixão tem cara, cheiro e nome, pode chamar-se Mahatma Ghandi, entre outros e outras.
…Onde a natureza é explorada de forma gananciosa, sem nenhum compromisso com as gerações vindouras, compaixão tem cara, cheiro e nome, tem greve e discurso ainda que feito por um matuto como Chico Mendes, entre outros e outras.
…Onde a hipocrisia é quem manda, o fingimento é quem que reina e a falta do uso da razão é espiritualizada, compaixão tem cara, cheiro e nome, pode chamar-se Rubem Alves, entre outros e outras.
…Onde o analfabetismo é bem visto, o subemprego bem quisto e esse salário mínimo defendido, compaixão tem cara, cheiro e nome, pode chamar-se Darci Ribeiro ou Paulo Freire, entre outros e outras.
…Onde… compaixão é qualquer ação, feita especialmente em nome e por amor a Jesus, consciente ou inconsciente, espontânea ou não, que de alguma forma tira-nos do comodismo, do individualismo, do esquizofrenismo, das nossas dores, dos nossos desamores, dissabores e sofrimentos e leva-nos à identificação com o pobre, com o necessitado, com a dor alheia, impulsionando-nos a defender, a promover, a participar e a apoiar ações que visem o bem da coletividade.
Que o Eterno nos ajude a crescer em compaixão.
Compilação de texto de Maruilson Souza,
citado por Ebenezer na Pedra de Ajuda.
O texto completo está aqui.
citado por Ebenezer na Pedra de Ajuda.
O texto completo está aqui.
Facada
Puxou a faca. Sob ameaça de morte, percebendo que não lhe restava nenhuma saída que não fosse o motim, empunhou a lâmina delgada. O momento não lhe permitia reação que não fosse essa ou entregar-se à morte. Chegou a pensar em render-se, mas intuiu que a rendição significaria não sua derrota mas a falência de seu sonho. Naquele instante, abatido, acuado, poderia abrir mão da vida. Seu sonho, no entanto, parecia-lhe maior que ele mesmo. Parecia, ele sim, ser bom motivo para a luta.
Espadas, lanças e adagas apontavam com convicção para seu peito. A pequena faca não oferecia a menor possibilidade de vitória. A situação era tão absurda que a mente descolou-se da lógica e do bom senso. Flutuou acima do óbvio e lançou-se às pontas afiadas.
Deitado no chão duro, observou o grupo se distanciando vitorioso. Alguns limpavam o sangue das lâminas enquanto outros as arrastavam no solo, riscando a terra com ruído metálico, e caminhavam de ombros caídos rumo aos portões. Retornariam à segurança das altas muradas que os mantinham distantes do sol e do vento. Deixado aos abutres, no entanto, ainda viu os olhares fixos de espanto e confusão de alguns do povo na entrada da cidade. Não fitavam os vencedores, nem os recebiam com entusiasmo; esses simplesmente passaram esbarrando na multidão rumo ao castelo no centro da fortaleza. Ofegante, quase morto, percebeu que o pequeno grupo de aldeões permaneceu olhando estarrecido o breu de seus olhos semicerrados. E sorriu.
Espadas, lanças e adagas apontavam com convicção para seu peito. A pequena faca não oferecia a menor possibilidade de vitória. A situação era tão absurda que a mente descolou-se da lógica e do bom senso. Flutuou acima do óbvio e lançou-se às pontas afiadas.
Deitado no chão duro, observou o grupo se distanciando vitorioso. Alguns limpavam o sangue das lâminas enquanto outros as arrastavam no solo, riscando a terra com ruído metálico, e caminhavam de ombros caídos rumo aos portões. Retornariam à segurança das altas muradas que os mantinham distantes do sol e do vento. Deixado aos abutres, no entanto, ainda viu os olhares fixos de espanto e confusão de alguns do povo na entrada da cidade. Não fitavam os vencedores, nem os recebiam com entusiasmo; esses simplesmente passaram esbarrando na multidão rumo ao castelo no centro da fortaleza. Ofegante, quase morto, percebeu que o pequeno grupo de aldeões permaneceu olhando estarrecido o breu de seus olhos semicerrados. E sorriu.
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